quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Mistérios da leitura - Ivete Walty




“Demorei a atenção nuns cadernos de capa enfeitada por três faixas verticais, borrões, nódoas cobertas de riscos semelhantes aos dos jornais e dos livros. Tive a idéia infeliz de abrir um desses folhetos, percorri as páginas amarelas, de papel ordinário. Meu pai tentou avivar-me a curiosidade valorizando com energia as linhas mal impressas, falhadas, antipáticas. Afirmou que as pessoas familiarizadas com elas dispunham de armas terríveis. Isto me pareceu absurdo: os traços insignificantes não tinham feição perigosa de armas. Ouvi os louvores, incrédulo.” (RAMOS, Graciliano. Infância. São Paulo: Record, 1982, p. 104)


Este trecho do livro Infância, de Graciliano Ramos, aponta para os desafios da leitura, tanto aqueles enfrentados pelo menino que, adulto, narra suas memórias, como aqueles enfrentados por nós, leitores do livro em questão. Ler Graciliano Ramos é sempre a oportunidade de “inteirar-se das maravilhas” que nos reserva o mundo da literatura.